Em meio à crise, gregos criam moeda local e redes de trocas

14 jun

Da Carta Maior:

Na pátria natal do pintor Giorgio De Chirico o euro é quase uma metáfora há muito tempo. A quase 400 quilômetros de Atenas, o euro foi cedendo pouco a pouco o lugar ao TEM, uma moeda alternativa de uso corrente nesta capital onde está um dos maiores portos comerciais do país. Yiannis Grigoriou ocupa uma modesta mesa situada no mercado central de Volos. Este sociólogo grego criador do TEM é um banqueiro pouco comum: uma mesa precária e um computador onde registra as transações efetuadas por meio do TEMm constituem seu material de trabalho. “Nós nos demos conta de que não precisamos tanto do euro como pensávamos”, diz Grigoriou.

A ideia surgiu no ano passado e prontamente atraiu muita gente que acabou constituindo uma rede de quase mil pessoas. O TEM funciona como uma moeda de troca. É o instrumento imaterial de uma troca onde um euro equivale a um TEM. Cada produto ou serviço que se oferece em troca está registrado em um arquivo central que atribui o seu valor em TEM. Os integrantes da rede se inscrevem na internet e tem uma conta cotizada em TEM mediante a qual vendem e compram por meio desse sistema de troca. A moeda, de fato, não existe, É apenas um papel onde se inscreve o valor para permitir a troca. “ Se a primavera não chega, inventa-a”, diz o poema do escritor grego Odysseas Elytis (Prêmio Nobel de Literatura 1979). Uma parte da Grécia optou pela reinvenção da realidade.

Cursos de cozinha em troca de aulas de inglês, serviços vários por plantas, jóias, aparelhos, alimentação, livros, cursos de yoga ou peças de reposição, tudo pode ser trocado em TEM segundo o valor do que é oferecido e seu equivalente compensatório. No momento em que o país afunda em um abismo visível de pobreza, desemprego, interrupção de pagamentos e fechamento massivo de estabelecimentos comerciais, o TEM representa, mais que uma moeda de intercâmbio, um “sistema de esperança”, como define Yiannis Grigoriou. As crises geram solidão, o TEM propõe contatos.

A ideia de Yiannis mostrou-se tão útil como original porque impulsionou uma alternativa de relações concretas. “As pessoas que participam na rede não só fazem trocas, como, sobretudo, entram em uma relação de ida e volta, ou seja, de dar e receber. O TEM funcionou como um capitalizador da esperança”. Ainda que a apoie, o prefeito de Volos, olha para a iniciativa com um certo receio. “Não vai substituir o euro. O TEM é uma forma de seguir adiante, de demonstrar que a vida continua e, a sua maneira, de tentar sair da profunda crise econômica e social”, diz o prefeito.

O tributo que a Grécia tem pago pela sua permanência dentro da zona euro (17 países dos 27 da União Europeia) é tão alto que, para alguns habitantes de Volos, a moeda única europeia já é algo do passado. O país foi engolido. “Temos que deixar o euro para trás e inventar outra forma de existir”, assegura Jritos, um comprador em TEMs. O sistema criado em Volos se estendeu a outras cidades, como maior ou menor êxito. Pieria, Chania, Lesbos, Lerapetra, Rodopi e Heraklion se juntaram à lista desta iniciativa cidadã para tempos adversos.

De fato, o TEM retoma uma ideia que já estava em curso desde 2009 na cidade de Patras, no norte da península do Peloponeso. Trata-se de Ovolos, uma rede de trocas cujo nome retoma a denominação de uma antiga moeda grega que funcionava a partir de um intercâmbio de serviços. Atenas e sua região também ensaiaram pôr em prática uma espécie de LETS (sistema de intercâmbio local) chamado ATI. A plataforma de intercâmbio comunitário autoriza o uso do euro, mas também seu equivalente em ATI (o mesmo que o TEM).

Jritos diz que o “TEM não é uma alternativa ao euro, mas para a própria vida”. Para este cinquentão bem cuidado, engenheiro sem salário há cinco meses, o TEM “veio demonstrar que todos valemos mais que o dinheiro que temos no banco, que todos temos algo de valor para dar”. Diferentemente da moeda emitida pelos bancos, esta unidade de troca coloca as pessoas em relação muito estreita.

A crise ativou na Grécia muitas iniciativas cidadãs. Os gregos que se movem por trás dessas iniciativas citam frequentemente a crise vivida pela Argentina em 2001 como exemplo para a produção de moedas locais e outras novidades que rompem com o esquema liberal. Em março passado, um grupo de ativistas da nortenha cidade de Katerini lançou o que hoje se conhece como a “revolução da batata”. Uma ideia simples, mas eficaz: vender batatas e outros produtos agrícolas sem passar por intermediários, ou seja, os supermercados, barateando assim o custo para o consumidor ao mesmo tempo em que o agricultor incrementa seu próprios ganhos. Os pedidos são feitos por telefone ou pela internet. Compradores e vendedores acordam um valor, em geral em um estacionamento, e a transação é feita sem nenhum intermediário. A falta de meios impulsionou o crescimento deste modo de comércio direto onde a internet é, quase sempre, o ponto de articulação. O portal Gine Agrotis promove o encontro entre produtores e consumidores sem passar pelos intermediários clássicos que incrementam o preço final do produto.

Mas essas iniciativas comunitárias não escondem a densa floresta que a crise plantou. Em Plaka e Monastiraki, os dois bairros de Atenas que suscitam a paixão universal dos turistas, há várias vidas dentro de uma. De dia, entre músicas e atrações para os turistas, guloseimas e sandwiches gregos, escuta-se uma algazarra que contrasta com a realidade do país. Mas é um espetáculo para turistas. Assim que cai a noite, a Atenas real emerge com todo seu peso. Duas quadras acima, aparecem as silhuetas daqueles que não têm onde dormir e se acomodam entre papelões onde há um espaço livre. Vida indigesta. “Uma caminhada de sombra à margem da Quimera”, diz outro poema de Odysseas Elytis. Espetáculo da queda sem mediações.

A Grécia se empenha em seguir a rota traçada por uma pichação feita nas ruas do centro: “Κάνε άλμα πιο γρήγορο από την φθορά”: vá mais rápido que a desintegração”. Mas a floresta avança sobre a cidade. As ruas com pessoas à beira do caminho são a realidade de uma cidade que conta com mais de 20 mil pessoas sem teto. Os muros sempre cobertos de pichações e protestos são o relato contínuo da alma ferida pela punhalada de uma classe dirigente que gastou o que não tinha e de um sistema internacional que cobra uma dívida que ele mesmo originou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: