As digitais dos latifundiários no golpe no Paraguai

25 jun
Há muito ainda o que entender a respeito do golpe de Estado no Paraguai – e essa tarefa certamente não será cumprida se continuarmos recorrendo aos discursos e textos produzidos por Mervals, Azevedos, Jabores e quetais, que não escondem os sorrisos de contentamento e se apressam apenas em comemorar a queda de mais um presidente “esquerdista” na América Latina. É preciso romper esse cinturão reacionário – e, nesse sentido, as redes sociais e os blogs mais uma vez têm tarefa relevante (embora não suficiente) a cumprir. Para contribuir modestamente com esse movimento, recomendo uma leitura apurada e cuidadosa do documento acusatório apresentado pela oposição ao Congresso Nacional do país vizinho, que elenca as “justificativas” para a deposição de Fernando Lugo. No texto, são evidentes as digitais de rapina dos grandes fazendeiros paraguaios, a desenhar e pavimentar  o golpe. Eis uma das chaves para compreender o processo anti-democrático: Lugo inverteu prioridades e contrariou interesses de gente graúda. E bateu de frente com os circuitos privilegiados do poder.
Diz um trecho emblemático do texto que “foi o governo do presidente Lugo o responsável exclusivo por instigar e facilitar as recentes invasões de terras na região de Ñacunday. A falta de respostas por parte das forças policiais diante das invasões dos sem-terra que não respeitam a propriedade representa apenas parcela desse comportamento cúmplice. O presidente Lugo tem usado  as forças militares para gerar um verdadeiro estado de pânico em toda a região, violando os direitos de propriedade. (…) E embora essas invasões se espalhassem por outros departamentos da República, Lugo se mostrava sempre com as portas abertas para líderes dessas invasões, dando mensagem clara à cidadania de seu apoio a esses atos de violência e aos delitos patrocinados por essas organizações. (…) Lugo submeteu as forças policiais aos interesses dos ‘carperos’ (sem-terra), que têm patrocinado todo tipo de abuso e agressão à propriedade privada”.
Chamo a atenção para a quantidade de vezes que se faz referência, de uma forma ou de outra, em pouco mais de dez linhas, “às invasões de sem-terra e às violações da propriedade privada”. A repetição não é casual – ao tentar equacionar uma gravíssima chaga social vivida pelo Paraguai e colocar em marcha iniciativas de reforma agrária e de distribuição de terras, Lugo, que governava sem maioria no Congresso, deu a senha para que os fazendeiros colocassem o golpe em marcha. A roda reacionária já estava girando havia algum tempo. A morte de onze trabalhadores rurais e de seis policiais em uma reintegração de posse acontecida no último dia 15 de junho, em Curuguaty, distante 250 quilômetros da capital, fechou o cerco e colocou o presidente definitivamente na berlinda. A tragédia foi exaustivamente reverberada pela mídia oposicionista, a consolidar o clima de pânico e o discurso do “não há liderança, o país está acéfalo”. Foi o suficiente para que os fazendeiros, em conluio com deputados e senadores oposicionistas, entrassem com o pedido de impeachment no Congresso, alegando “mau desempenho das funções” e jogando nas costas de Lugo a responsabilidade pelas mortes.
O resto do roteiro – um jogo de cartas marcadas – já é conhecido: na quinta-feira, 21 de junho, a Câmara dos Deputados aprovou o pedido de abertura de impeachment; no dia seguinte, início da tarde, o Senado começou a julgar a solicitação. Lugo teve cerca de duas horas para apresentar sua defesa. Ao final da tarde, já tinha sido apeado do poder, e não era mais o presidente do Paraguai. Às oito da noite, o vice-presidente Federico Franco (que faz jus ao sobrenome), que já tinha cerrado fileiras com a oposição, tomou posse como novo mandatário máximo do país. Tudo isso durou cerca de 30 horas. “Não havia base suficiente para montar um processo de impeachment. O julgamento foi um fuzilamento sumário”, registrou Clóvis Rossi, uma das poucas vozes midiáticas lúcidas até aqui, na Folha de São Paulo.
Sem eufemismos: o que aconteceu no Paraguai foi um golpe de Estado.
Satisfeitíssimos com a nova realidade política, os latifundiários paraguaios, coordenados pela União de Grêmios de Produção (UGP), não tiveram o menor pudor ou constrangimento em simplesmente anunciar o cancelamento do tratoraço que estava marcado para a próxima segunda-feira, com objetivo de protestar contra a política agrária do governo Lugo. Sem esconder a felicidade, e ameaçadores, os fazendeiros mandam ainda recado aos líderes dos países que rechaçam o golpe: “os de fora não devem tentar interferir nos problemas internos do Paraguai”.
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