“Caí imediatamente e um lençol de sangue se abriu sob mim”, diz manifestante agredido por guardas municipais em Porto Alegre

6 out

Relato de Germán Álvarez, estudante agredido por guardas municipais em manifestação em Porto Alegre:

“Queridos amigos e conhecidos, obrigado pela preocupação. Estou passando (quase) bem.
A noite de horror vivida por nós no centro de Porto Alegre nos coloca frente a uma nefasta realidade:

Por um lado, uma Brigada Militar em completo desacordo com mínimos preceitos democráticos e total desprezo pelos Direitos Humanos. Os cuidadores de tatu (a PM) fizeram um papel vergonhoso frente à sociedade gaúcha. Para defender um boneco de plástico fizeram correr sangue portoalegrense pelas ruas e calçadas do Centro. A tropa de choque agiu como um grupo de mercenários terroristas da Coco-Cola/Fifa. Em grupos de 3, 4 chutava pessoas desarmadas caídas no chão. Chutavam na cabeça, nas costas, batiam com o cacetete abrindo rasgos nas cabeças. Insultavam a todos: filho(a) da puta, vadia, puta, maconheiro(a), vagabundo(a). Robaram o celular, câmera fotográfica e todo tipo de aparelho que pudesse registrar o massacre em plena via pública. Confiscar e destruir bens dos manifestantes é ilegal, não? Não, pra mercenários não há regras nem lei. Chama a atenção que nossos meios de comunicação tradicionais fizeram questão de dizer uníssonos que tudo se tratou de vandalismo sem causa. Por que não se comoveram com todas as violações às liberdades individuais e de direitos humanos? Menos mal que temos o Sul21 mandando jornalistas e fotógrafos realmente comprometidos com os fatos que se apresentam objetivamente, não com a necesidade dos patrocinadores.

E a Guarda Municipal? Que homens tão covardes se mostraram nessa noite. Esperaram que a PM baixasse o porrete e dissipasse a manifestação para começar a agir perseguindo com porretes e choques (teaser) as pessoas que já desarticuladas rumavam para suas casas. Três guardas vieram para cima de mim, o do meio me apontava a arma de choque, eu com as mãos espalmadas pedindo calma, tentando argumentar que já havia terminado (após 40 minutos de pancadaria terrorista) um dos três Guardas tomou distância e bateu-me forte com o porrete na cabeça. Caí imediatamente e um lençol de sangue se abriu sob mim. Os amigos que tentaram me socorrer foram inicialmente dissipados até que houve o entendimento de que eu realmente não podia ficar alí sangrando sozinho. O Guarda Municipal que me bateu com toda força na cabeça (mesmo estando eu em postura de rendido) sabia que podia podia ser fatal, não sabia? O comandante da Guarda Municipal, Eliandro Oliveira de Almeida disse à Zero Hora que não houve registro de excessos por parte da Guarda. Sim, quem registraria a própria atitude terrorista?E a mídia merece o troféu Desserviço à Humanidade. Posicionar-se com tanta convicção a favor da violência da repressão do Estado e do Município contra sua população – omitindo à população imagens e relatos que atestam violações de todos os tipos. A RBS alegando que tudo não passou de vandalismo jovem e partidário, tenta bloquear a verdade das fotos e dos vídeos.

Por outro lado, há que se dizer que muito aprendemos nessa noite de terror. Quando tudo parecia muito macabro, o espírito de cooperação e fraternidade entre os espancados manifestantes fez frente ao terrorismo. Na minha volta enquanto a SAMU não chegava ((porque foi orientada pela Brigada), muitos conhecidos e desconhecidos pararam para prestar o socorro que o Estado não prestou, e mesmo sob ameaças de apanhar mais eles ficaram alí cobrindo-me e alentando-me. Orgulho de ver que o medo não impediu o amor de ser amor, e de ter coragem.

Aprendemos que somos muitos os dispostos a despir-nos em todos os sentidos para viver de alegria, amor, justiça e liberdade. E não, não somos vagabundos. Somos trabalhadores, somos estudantes, somos a gente desta terra. Não vagabundos baderneiros.

Descobrimos que amamos muita gente e que o lugar do amor, por excelência, é a rua.
Um abraço e um beijo fraterníssimo a todos que estiveram presentes neste dia ou que acompanharam e entenderam a Defesa Pública da Alegria. Ela aconteceu, vencemos com alegria e sangue.”

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2 Respostas to ““Caí imediatamente e um lençol de sangue se abriu sob mim”, diz manifestante agredido por guardas municipais em Porto Alegre”

  1. Alexandre Gomes Vilas Boas 6 de outubro de 2012 às 00:11 #

    Lamentável, ridículo e faz-se necessário que vigiemos essas atitudes absurdas, arbitrárias da “polícia”….essa milícia mercenária de pessoas despreparadas e que historicamente sempre esteve ao lado do Rei….agora, mantém a salvo os interesses corporativistas dos governos e companhias! A máscara caiu! As pessoas estão mais esclarecidas e a sociedade não pode mais tolerar esse tipo de coisa!

    • Maribel 6 de outubro de 2012 às 20:10 #

      Gérman, que triste isso que aconteceu!!!! vi na televisão o absurdo, mas até teu relato não sabia de nenhum conhecido/querido que estivesse na manifestação. Por mais que nossos políticos gritem aos quatro ventos que vivemos num país livre todas as manifestações e protestos são tratadas como se estivessem numa rebelião contra marginais. Até quando precisaremos ficar submetidos a esse tipo de horror? Coragem nas lutas querido!

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