Entre a alegria e a tristeza – resistência, arte, privatização e repressão em Porto Alegre

13 out

Por Matheus Gordo e Nathália Gasparini

Na última quinta-feira (4) um fato polêmico virou capa dos jornais da cidade. Em todos os lugares, as pessoas comentavam, analisavam e emitiam opinião sobre o tal do “tatu da copa” (que poderia ser da Coca-Cola, do “Seu Fortuna”, da Opus… enfim, como preferir). Não é sempre que uma situação como essa acontece! Acreditamos que o mascote é, na realidade, uma representação simbólica de algo muito maior. E símbolos quando caem, geram análises e interpretações de todos os lados. A questão é que a complexidade do seu significado exige que façamos um debate para além do tatu-bola. Inclusive para limpar a discussão, devido ao mar de hipocrisia vindo da boca dos grandes meios de comunicação e das manifestações conservadoras que refletiram uma incompreensão quanto à manifestação popular.

O ato “Defesa Pública da Alegria” foi, em nossa opinião, uma resposta da juventude à política de higienização social aplicada em Porto Alegre pelos governantes, que está sendo intensificada nesse momento.  Organizado pelo Facebook, o movimento começou durante a tarde, iniciou com dezenas e acabou acolhendo centenas de jovens no centro da capital. O evento tinha como foco manifestações artísticas, um  símbolo de uma das áreas da vida da juventude que mais tem sido afetada pelas políticas da prefeitura (cujo objetivo, pelo menos de algumas, é a “higienização” da cidade): a do direito à cultura e aos espaços públicos. Diversos coletivos e indivíduos engrossaram essa convocação aos jovens de comparecer na praça em frente à prefeitura e o plano não era, de início, alvejar o mascote da Copa.

A adesão de tantas pessoas à manifestação foi consequência da insatisfação da juventude quanto a essas políticas, pois há tempos Secretaria Municipal de Indústria e Comércio está cerceando os espaços culturais públicos, em especial na área central da cidade. O centro de Porto Alegre é um local histórico, mas nos últimos anos estava literalmente “jogado”, abandonado pelo poder público. Agora, com a iminência da Copa em 2014, se inicia a política de revitalização do centro, que é incorporada pela administração do prefeito (infelizmente) recém-reeleito José Fortunati, mas que na realidade é coordenada pelo interesse do poder privado, que é quem mais lucrará com o megaevento.

O Largo Glênio Peres, onde estava o mascote da Copa, é o maior exemplo dessa política. No início desse ano foi aprovada a Lei n°11.213, que proíbe que ocorram ali diversas atividades autônomas, feiras de microempresários e pequenos comerciantes que antes ocorriam, além de ter proibido a realização de atividades culturais. A juventude e os trabalhadores perderam, do ponto de vista econômico (muitas sobreviviam dessas atividades), mas também cultural, pois dessa forma ficou aberta a justificativa para a repressão de atividades como a Batalha de Rap do Mercado e o Largo Vivo. Contraditoriamente, o prefeito tentou implementar um estacionamento público nesse mesmo local (o que, aliás, junto com a inauguração da “ciclofarsa” da Av. Ipiranga, inaugurada com 500 metros, demonstra a política de mobilidade urbana do prefeito). Agora, quem saiu ganhando foi a Coca-Cola, que é praticamente a dona do espaço. Investiu 1,5 milhões na construção de um chafariz que é abastecido por um reservatório de 12 mil litros de água, que fica no subsolo do Largo.

A medida também é parte do projeto “Viva o Centro”, que iniciou em 2006, com três objetivos centrais:

1) reverter a “imagem negativa do centro”, algo que na linguagem dos ricos significa limpar o que é velho, sujo e na maioria das vezes negro e pobre;

2) promover a “qualificação do espaço urbano”, o que tem se traduzido nas dezenas de obras com Parcerias Públicos Privadas (PPPs), que visam transformar o centro em um local mais aconchegante para os turistas e desconfortável para a população (eis o belo “chafariz” atrapalhando a passagem de quem precisa circular no centro),além da restrição da cultura e arte independente;

3) o “fortalecimento da dinâmica funcional”, que quer dizer, em bom português, o interesse dos grandes empresários. A própria ação repressiva dos governos e da polícia sobre o Camelódromo na última terça (09) é exemplo da intenção de transformar o centro em um espaço cada vez mais elitizado e privado. Alguns dos grandes parceiros do projeto são empresas como Aracruz e a Companhia Zaffari (que financiam campanhas dos políticos), Grupo RBS e Correio do Povo, além dos governos Tarso e Dilma.

Ainda pela área central da cidade existem diversos projetos, que incluem a restrição de funcionamento de dezenas de bares da Cidade Baixa, normalmente os frequentados pela galera “mais sem grana” e pelo público LGBT. Além disso, existe o projeto de revitalização da orla, que contém a área já “adotada” pela Pepsi, a Usina do Gasômetro e o Pontal do Estaleiro, que é um dos principais focos de polêmica na política de Porto Alegre e um dos locais mais disputados pela burguesia. No Bom Fim, o Araújo Viana, espaço que já abrigou assembleias com milhares de trabalhadores, congressos de movimentos, partidos além de shows inesquecíveis de grandes artistas com preço popular, agora é administrado 75% pela OPUS e 25% pela prefeitura e ainda ganhou uma “belíssima” cerca – para a qual temos que ficar atentos: a Zero Hora já anuncia, novamente, a “polêmica” em torno do cercamento do parque da Redenção inteiro.

Essa é uma das facetas escondidas por trás do tatu, mas agora é necessário se deslocar do centro e observar também outras bandas da cidade. Em diversas zonas, obras faraônicas respondem às demandas da copa, mas acabam por penalizar os setores tradicionalmente excluídos da dinâmica desenfreada das metrópoles. As remoções da copa são, na realidade, transtornos causados à população para suprir as vontades das grandes incorporadoras e construtoras (que não por acaso financiaram a campanha de vários candidatos na cidade), como é o caso da duplicação da Av. Moab Caldas (Tronco). Ao invés de atender às demandas da população com relação à infraestrutura e à regulação dos terrenos da região, o foco são as vontades da especulação imobiliária que avança a passos largos sobre a Zona Sul. A avenida cruza uma área onde moram cerca de 45 mil habitantes e atinge direta e indiretamente 45 vilas. Os moradores reclamam da truculência da prefeitura para realizar as negociações e das incertezas quanto às novas moradias. A prefeitura prevê a construção de 570 unidades habitacionais, mas as obras ainda não têm data para começar, diferentemente da duplicação, que só aguarda a ordem de início. O “bônus moradia” oferecido pela prefeitura é outro problema, pois não corresponde ao valor dos imóveis na região: é cerca de R$ 52.340, o que obriga os moradores a irem para bairros mais afastados.

Outro exemplo importante é a situação das comunidades remanescentes de quilombolas, a começar pelo Quilombo da Família Silva, que fica no bairro Três Figueiras (um dos bairros com metros quadrados mais caros, cerca de R$5.000). Lá, mesmo com a titulação completando três anos, há a ameaça constante da desapropriação de parte da área para o avanço da Rua João Caetano, o que inviabilizaria a existência do espaço. Além disso, a prefeitura está executando “Os Silva” numa ação milionária de cobrança do IPTU, o que é ilegal, pois o quilombo está registrado pelo município como Área Especial de Interesse Cultural. Mas, em nossa cidade tudo parece girar em torno do interesse da especulação imobiliária!

O protesto da última quinta abordava o conjunto dessas questões, ainda que de forma inicial, mas já servindo como um passo importante para tentar a unificação da luta dos jovens com a população trabalhadora, quilombola etc. Mas, infelizmente, o que acabou se tornando o objeto central do debate pós ato foi a ação da polícia e da guarda municipal. A repressão se armou de forma dura e os manifestantes da Alegria se depararam com seis viaturas protegendo o tatu na hora do evento (e seriam, cinco dias depois, oito somente da Brigada Militar, sem contar as do Batalhão de Operações Especiais, para lidar com os trabalhadores do camelódromo), mais a guarda municipal cercando a prefeitura e, posteriormente, a Tropa de Choque. É incrível que, em ambos os casos, a prefeitura se lembre de “fiscalizar” e “proteger o trabalhador” justo quando interesses privados estão em questão. Não é possível crer que seja justo a população assistir sentada a tudo isso sem, minimamente, demonstrar sua indignação.

E, assim, caiu o tatu. Junto com ele, caíram os direitos humanos e, no lugar, entrou um estado de exceção: foi assim que cerca de 20 policiais não impediram os manifestantes de derrubar o tatu, mas agrediram todos os envolvidos no ato, até aqueles que buscavam se esconder das bombas de efeito moral ou tentavam, simplesmente, ajudar os amigos feridos. A perseguição pelas ruas do centro foi ostensiva e violenta. Diversos jornalistas que tentavam registrar os abusos foram agredidos, presos e tiveram câmeras e celulares destruídos. Denúncias de ações machistas e racistas por parte da BM foram expostas ao público. Sabe aquele tribunal de rua de que O Rappa fala na sua música? Foi exatamente assim. E, depois disso, os feridos e agredidos ainda tiveram que ler na mídia local interpretações absurdas e mal intencionadas do acontecido, ignorando as pautas do movimento e as belíssimas manifestações artísticas coletivas, como se o alvo da indignação fosse, abstratamente, a marca da Coca-Cola. E, pior, muitos compraram esse absurdo e reproduziram por aí. O mais ridículo é ler, uma semana depois, as declarações dos proprietários do boneco reproduzidas pela polícia que afirmam: o mascote não foi sequer danificado, apenas teve o “motor” desligado! Ou seja, ele está em “coma”, mas assim que a prefeitura achar conveniente voltará a vida, com toda a segurança necessária.

O tatu, mesmo que momentaneamente, caiu, mas, infelizmente, não caíram a política de parceria público-privada de gestão de espaços antes públicos nem a política de higienização dos espaços da cidade. Também não caiu a falta de incentivo à cultura dessa prefeitura que, lamentavelmente, estará aí por mais quatro anos. É certo que, até e durante a Copa, a situação tende a piorar, pois mais mudanças e mais privatizações serão feitas sob o pretexto do megaevento. Afinal, a cidade precisa ficar “bonita”, branca, rica (!) e “limpa” até lá. Sem dúvida, essa política contará, enquanto governar, com o apoio de Tarso, pois o interesse econômico na Copa ultrapassa os interesses “ideológicos” desses partidos. Assim, essa política vai ser implementada a braço firme com ajuda da Brigada Militar, sem dúvida.

A questão é que a juventude já mostrou que é capaz de alegria, de arte, de protesto, de força, apesar de tantos “vocês” que têm que enfrentar, como disse o Chico Buarque lá na época da ditadura militar. E, se esses dois anos que separam o presente da Copa forem, de fato, cheios desse tipo de política, também serão cheios de resistência de quem não concorda com isso. Muitos tatus simbólicos terão de ser derrubados para isso, e diferentes formas de luta serão necessárias. A gente não foge da raia a troco de nada, e estaremos presentes nos movimentos de resistência.

Que venham os tatus, a juventude resiste.

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