Será difícil aceitar as desculpas da Rede Globo, diz Raul Pont

3 set

Da assessoria da bancada do PT-RS:

O deputado Raul Pont (PT) ocupou a tribuna do plenário da Assembleia Legislativa, na tarde desta terça-feira (03), para comentar o editorial da Rede Globo apresentado durante o Jornal Nacional, na noite desta segunda-feira (2) pelo jornalista William Bonner, em que a empresa da família Marinho admite que errou ao apoiar o golpe de 1964 e pede desculpas pelos equívocos decorrentes disso ao longo dos anos seguintes. “Quase caí da cadeira”, ironizou Pont. “Cinquenta anos depois!”, acrescentou. Para ele, vai ser muito difícil para quem sofreu com as perseguições da ditadura desculpar a Globo.

Sob o título “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”, o  texto  lido pelo apresentador do JN começa dizendo que “Desde as manifestações de junho, um coro voltou às ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. De fato, trata-se de uma verdade, e, também de fato, de uma verdade dura”, admite o editorial. “Já há muitos anos, em discussões internas, as Organizações Globo reconhecem que, à luz da História, esse apoio foi um erro”, acrescenta o comunicado oficial da maior empresa de comunicações do Brasil e uma das maiores do mundo, como para reforçar seu arrependimento.

Pont ressaltou da tribuna que o editorial está cheio de explicações, dizendo que o momento do país era difícil, marcado pela guerra fria e com um acirramento político muito duro e, principalmente, apontando que o movimento militar ocorreu como “um golpe democrático preventivo”, contra uma possibilidade de golpe que viria do próprio presidente eleito (João Goulart). Mas, apesar dessas ressalvas, o texto que expressa a posição oficial da empresa reconhece o equívoco da sua posição diante da derrubada à força, contra a Constituição, de quem estava na presidência.

“Não é algo menor (o reconhecimento do erro pela Globo), acho que ao menos ontem consegui revigorar a minha esperança na humanidade, afinal, depois de meio século as pessoas reconhecerem o erro sempre é bom”, ponderou. Bonner também disse, lendo o editorial, que a Rede Globo precisa se desculpar de todos os erros que cometeu ao longo desse período da ditadura, a partir desse pecado original. “Será difícil desculpar, para quem foi preso, torturado, para quem assistiu durante décadas este jornal, esta televisão, inventar versões, mentir ao povo brasileiro, para esconder fatos, plenamente comprovados, quantas vezes, de pessoas mortas dentro do Doi-Codi, da Operação Bandeirantes, do Dops de São Paulo, que eram retiradas mortas de lá para simular um acidente, para dizer que a pessoa morreu por atropelamento ou que foi baleada quando tentava fugir”, rememorou Pont.

Estas versões mentirosas da ditadura, continuou, ganhavam ares de veracidade no dia seguinte pela reprodução que lhes davam os meios de comunicação, principalmente a Rede Globo. O próprio editorial, inclusive, cita outros jornais, como a Folha e o Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Correio da Manhã, que tiveram a mesma atitude de cumplicidade e apoio total ao golpe. O deputado disse ainda esperar que seja verdadeira a declaração que encerra o texto: “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma”.

“Cinquenta anos depois!”, repetiu o deputado. “Mas se isto veio de boa fé, devemos ter uma postura condescendente de que talvez o jornal busque um novo momento, um novo caminho”, disse. “Mas eu tenho absoluta certeza que aquilo que aconteceu, os males que isso trouxe para o país, isso não tem retorno, assim como não tem retorno as inúmeras concessões e canais de rádio e televisão que esse grupo recebeu de mão beijada, porque era o arauto da ditadura, o defensor incondicional e a justificadora de todas as questões que eram escondidas no seu noticiário. Essas questões certamente o povo brasileiro ainda terá o direito de continuar cobrando”, concluiu.

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