“Não é crime defender a vida” – Entrevista com Elizabeth Palmeiro, esposa de um dos 5 cubanos presos nos EUA

12 set

Alexandre Haubrich

Cinco antiterroristas estão há quinze anos presos no país que se diz o maior combatente contra o terrorismo. Ramón, Gerardo, Tony, Fernando e René são Cuba encarcerada por todo o tempo possível nos Estados Unidos. Infiltrados em organizações que mantinham regularmente ataques terroristas contra o povo cubano, foram presos, julgados em Miami – onde está a maior comunidade antirrevolução cubana – e condenados a penas que chegam a duas prisões perpétuas e mais 15 anos, no caso de Gerardo. O governo cubano e o povo da ilha manifesta-se de todas as formas possíveis em defesa de sua liberdade. Por todo o país espalham-se outdoors com o lema “Voltarão!”. Por todo o mundo espalham-se manifestações de solidariedade. As famílias, dilaceradas e injustiçadas, sofrem. Mas, estimuladas pela solidariedade nacional e internacional, não deixam de lutar. Condenados, resta aos 5 heróis antiterroristas cubanos a expectativa de que o presidente Barack Obama os conceda a liberdade a que têm direito. Na entrevista exclusiva a seguir, Elizabeth Palmeiro, esposa de Ramón Labañino Salazar, fala sobre tudo isso e sobre as perspectivas dessa longa e doída batalha.

Jornalismo B – Gostaria que tu fizesse uma retrospectiva do que aconteceu, para quem, no Brasil, não conhece a história dos 5.

JB 51 - Página 4 - Foto Bruna Andrade

Foto: Bruna Andrade

Elizabeth Palmeiro – Sou a esposa de Ramón Labañino Salazar, um dos 5 heróis injustamente presos nos Estados Unidos. Meu esposo foi preso em 1998 e quem sabe os amigos que vão ler a entrevista podem remeter-se a um livro muito importante que fez Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, onde ele relata de uma maneira novelesca e muito interessante a essência do caso dos nossos familiares e a origem da prisão dos nossos familiares. Foram presos porque estavam se infiltrando em grupos terroristas sediados na Flórida, em Miami, especificamente. Grupos terroristas que causaram muita dor e sofrimento ao povo cubano e que na década de 90 estavam fazendo uma campanha de bombas aqui em Havana para afetar o turismo. Meu esposo era um desses homens que estavam desempenhando este papel importante de tentar conhecer os planos dessas pessoas, desses terroristas, e tratar de adiantar-se a esses planos para botar-lhes fim, foi preso em 12 de setembro e levado ao Centro Federal de Miami e depois de dois anos de árduo trabalho por parte dos advogados para poder chegar ä evidência foram enjuizado em Miami, na mesma cidade onde foram presos e a única cidade dos Estados Unidos onde não podia haver um juízo justo, foram condenados a penas atrozes, altíssimas, de penas perpétuas e anos de prisão. Depois disso os advogados se empenharam em um processo de apelação que deu como resultado, em 2009, uma nova sentença em que as prisões perpétuas de Tony e do meu esposo, Ramón, foram trocadas por anos, ao meu esposo 30 anos, a Tony 22 anos, mas ficaram como antes as condenações de Gerardo e de René, Gerardo a duas prisões perpétuas e mais quinze anos de prisão. Em 2001 o governo cubano decide denunciar ao mundo a terrível injustiça que se cometeu contra os nossos familiares e já são onze anos de denúncia, pedindo solidariedade internacional, porque esse é um caso político. É um caso que se converteu em uma tragédia familiar, em uma tragédia humana, mas tem um grande conteúdo político. Eles estão presos por serem cubanos, não por outra coisa. Casos parecidos com os dos nossos familiares foram resolvidos em questão de horas ou dias nos Estados Unidos, mas por serem cubanos estão presos. Nós pedimos a todos os amigos no mundo que nos têm acompanhado na tradicional solidariedade com Cuba que divulguem a verdade dos 5, a essência do caso dos 5, que foi muito terrivelmente manipulada, quando não silenciada nos grandes meios de comunicação. Por isso é tão importante ajudar a divulgar que há quinze anos cinco lutadores contra o terrorismo que afeta a Cuba estão presos precisamente no país que chama o mundo a uma guerra contra o terrorismo, no país que em nome dessa guerra contra o terrorismo lança bombas no Afeganistão, no Iraque, destrói civilizações, acaba com o patrimônio da humanidade… Por combater o terrorismo meu esposo está há quinze anos privado de ver crescer suas filhas, e outros, como Gerardo, que não teve a possibilidade de ter filhos e está impossibilitado inclusive de poder receber visitas de sua esposa. Então, como te dizia, é um grande caso político, e também uma grande tragédia humana, uma grande tragédia familiar. Não fizeram dano a ninguém, não cometeram nenhum crime. Não é um crime defender a vida de outros seres humanos, não é um crime tratar de opor-se ao terrorismo por meios pacíficos. Estão sendo vítimas do ódio das pessoas que na Flórida controlam os destinos de Cuba no Congresso, chantageiam o governo dos Estados Unidos. E nós, familiares, somos também vítimas disso, quando somos impedidos de visitá-los, quando se demora a possibilidade de visita-los, já que dependemos de um visto para ir aos Estados Unidos.

Como está a situação dos familiares? Como se sentem? E como sentem a solidariedade dos povos, e em especial em Cuba?

Para nós é muito importante a solidariedade internacional, e quando a encontramos ganhamos em energia e em força para poder seguir com a batalha pela libertação dos nossos familiares. São muitos anos, temos que ir pessoa a pessoa informando o que está acontecendo devido ao silencio dos grandes meios de comunicação. Os filhos dos 5 já não são crianças. Por exemplo, a filha de René, a menor, já vai completar 15 anos. Minha filha menor já tem 15, vai completar 16. E as duas foram privadas da presença de seus pais porque foram aprisionados quando eram muito pequenas. As outras já estão se graduando na universidade, estão se casando, têm filhos…minha filha mais velha, Laura, logo vai ao Brasil participar de um evento de mulheres camponesas. As mães vivem em uma constante batalha contra o tempo, a mais velha já tem 81 anos. Nós estamos envelhecendo. Tratamos de nos manter fortes, mas a batalha é difícil. É difícil ter passado tantos anos separadas de nossos amados esposos, e em alguns casos não pudemos ter filhos com eles, como Adriana…a situação mais difícil é de Gerardo, com duas prisões perpétuas e a impossibilidade de que o visitem…e além disso é um casal jovem que não pode ter filhos. Fernando tampouco pode ter filhos por causa dessa situação, sua esposa até já desistiu disso, a questão biológica marca um momento em que a mulher tem que renunciar a um sonho de ter um filho, e os filhos que nasceram não podem desfrutar dos pais, não podem crescer ao seu lado, não podem compartilhar momentos importantes de suas vidas.

JB 51 - Página 5 - Foto Alexandre Haubrich

A situação do teu marido, especificamente, como está agora?

Ramón neste momento está sendo transferido para uma prisão de baixa segurança, é a segunda vez que o trocam de prisão, o primeiro movimento foi para uma prisão de baixa segurança em Miami, e, como era lógico, quando chegou ali as autoridades viram que não poderia ficar nessa prisão. Voltou a onde estava, em Geórgia, Foi movido dessa prisão novamente, agora se encontra no Centro de Transferência esperando ser transferido, não se sabe para onde, é algo que não se sabe exatamente até que chega o preso. Com essa situação estão seu pai, seu irmão e sua filha mais velha nos Estados Unidos esperando para fazer uma visita, e foram impedidos até agora porque esse translado foi antecipado, e anteriormente houve um castigo na prisão e não puderam visita-lo. De oito visitas que podiam ter feito nessas duas semanas somente puderam fazer três visitas devido a essas duas situações que coincidiram, mas me parece que o mais cruel é terem-no movido dessa prisão sabendo que seus familiares estavam ali e sabendo o quão difícil é conseguir um visto.

Quantas vezes tu viste Ramón nos últimos quinze anos?

Em média, uma ou duas vezes ao ano. Houve momentos piores, em que os vistos se demoravam muito, e demorava até dois anos para que conseguíssemos o visto, mas agora com a presidência de Obama se está sendo menos cruel e temos podido ir duas vezes ao ano. No momento estou há um mês esperando um visto para que quando Ramón chegue ao seu destino final eu possa ir visita-lo e possa contar sobre as ações que estamos realizando para ajudar na causa dos 5.

O que dizer para quem quer ajudar com a luta dos 5?

Aos brasileiros lhes diria que leiam o livro do Fernando Morais, antes de tudo. Acredito que o livro dele ajuda a entender a realidade do caso dos 5, e vai além do ponto de vista de um familiar que, como eu, sempre vai defender a necessidade de libertar meu esposo. Isso para o Brasil. Mas, como esposa dele e como representação da família lhes pediria que se informem sobre o caso, que busquem informações e que participem das iniciativas dos amigos que já estão há anos trabalhando nisso, que já ajudaram a quebrar um pouco o muro de silêncio dentro das redes sociais. E que nos ajudem.

*Entrevista publicada originalmente no Jornalismo B Impresso

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